23 de novembro de 2015

Calabar

Já faz muitos anos essa história. Tantos que hoje já posso falar dela com carinho. Sem tristezas, arrependimentos, mágoas, nada. Só como um momento mágico que eu vou guardar com muito carinho. 

Era o show do Calabar. Ainda éramos quase estranhos um para o outro. Vivíamos naquele limbo dos casais em feto em formação. Medíamos as palavras, escolhíamos por horas a roupa para esse primeiro encontro. Ela decidiu levar algumas amigas para não ir sozinha naquele primeiro, e ainda tão casual, encontro. 

Nos encontramos naquele Sesc, logo bem perto de começar o show. Trocamos meia dúzia de palavras que hoje já nem me lembro mais o que era. Eu estava tremendo por dentro. Logo estava me comportando como os humanos se comportam quando se quer algo que está tão próximo e ao mesmo tempo léguas de distância. Ela sentou e eu sentei bem ao lado dela. Como numa sessão do cinema da tarde. O show começou. 

O som de Calabar ressoava o meu coração. Minha pele vibrava com o calor dela. Sobre a peça, sobre os atores, não sei muito dizer. Mas sobre o vestido à meia altura dela, esse sim, eu sei bem falar. Não conseguia tirar os olhos dele. E o cabelo então? Lisos, castanhos, cheirando shampoo recém-lavado. Ah, se os cientistas da Unilever soubessem o que eles causam com suas fórmulas químicas. Aposto que os cientistas estavam apaixonados quando chegaram naquela fórmula. 

A peça seguia. E a cada ato eu ia ficando mais aflito. A cada fala do ator, a cada suspiro da platéia eu suspirava mais. O tempo estava passando e ela ali do meu lado. Eu inerte, não conseguia me mexer. Ah, se eu deixasse o coração tomar conta do cérebro. Minha boca já estaria naquele pescoço. Sentindo o cheiro do seu perfume. Contando tudo o que eu aflito estava querendo dizer. Que ela estava linda, que ela poderia ser minha, que eu queria fazê-la feliz o máximo que eu pudesse, que minha vida estava pronta pra receber. O coração falaria tudo ali. Mesmo que depois pudesse se arrepender. Mesmo que ela não pudesse ouvir nada por conta das palmas de mais um ato que se encerrava. 

E o som subia para uma nova cena. Palmas na platéia para acompanhar a banda. Aí meu deus! Era o último ato. Estava logo no fim. Ela ali entretida com os atores, com a música. Sorrindo como se eu simplesmente não estivesse ali. Droga, mais uma vez eu ia perder o bonde. Era mais um amor que ia passar pelos meus olhos e só ficar na minha imaginação. 

Clímax no palco. Clima pegando fogo dentro de mim. O coração pulsando cada vez mais forte. O cérebro regulando cada vez mais. Uma grande revolução acontecia na praça. A polícia cerebral tentando conter a massa cardíaca que tentava avançar sem controle. Até um ativista apaixonado escapou. Foi só um. Mas o suficiente para minha mão levantar e cair em cima da mão dela. Como nos tempos antigos. A mão dela estava quente. Minha barriga ficou congelada com seu calor. Meus dedos escorreram pelos dedos dela e, ela, como se estivesse esperando por aquele momento a noite inteira, retribuiu o carinho com sua mão leve, macia de creme Nívea. 


Aquele foi nosso primeiro contato físico. De muitos outros que se seguiriam pelo ano seguinte. Um dia, com o mesmo calor que tudo começou, tudo teve o seu fim. Mas nessa noite, só quero lembrar daquele frio na barriga que senti com o calor da sua mão. Um sentimento tão angustiante, tão horrível, tão desesperado, que mal posso esperar para senti-lo de novo um dia. 

26 de outubro de 2014

Gente que seca

São Pedro, molha minha cidade. 
A cidade do teu irmão tá precisando de água. 
Já faz muito tempo que não se vê uma viva uma gota caindo do céu. 
Por aqui, só poeira e a fuligem que vem dos carros.
Água mesmo só se for do suor dessa gente que trabalha até mesmo sem saber pra quê.

São Paulo, é cidade grande demais pra não ter água. 
Se por aqui já não existia amor, sem água não vai sobrar nada.

Por aqui, não é só o rio que seca, a planta que murcha, a terra que racha.
Em São Paulo, seca também seca gente.
Gente que não sorri, não abraça, não se preocupa.
Gente que fica seca.
Como grão de areia no calor do dia. 
Não alivia. Só atrita, esfola e rala. 
16 milhões de grãos, São Pedro.
Enquanto a chuva não vem, 
É cada um por si e sol pra todos. 

É por isso que a gente tá precisando de água. 
Por que a água mistura. Lava o coração dessa gente toda empoeirada. 
Deixa a alma mais fértil e gente mais colorida - numa cidade que já é cinza demais.  

Por isso, São Pedro, eu te peço. 
Traz água pra gente. 
Pra que essa cidade não vire só pó e solidão.
Pra que essa terra não fique mais pesada do que já é.

Vai São Pedro. Abre a torneira rápido,
porque já tem muita gente secando por aí.

23 de outubro de 2014

Na hora do almoço

Dois amigos caminhavam pela rua. 
Um estranho surge na direção oposta e os cumprimenta como se todos fosse grandes amigos. 
Algumas amenidades são trocadas naquele clássico deslize onde um conhece o outro. Mas o outro não conhece o um.
Uma breve tensão no ar. O estranho se vai. 

Um amigo pergunta para o outro:
- Quem era o estranho?
- Eu não sei! Mas sei quem é aquele ali do outro lado da rua… ô fulano.

O fulano caminhava pela rua junto com um sicrano em direção oposta.
O fulano responde e algumas amenidades são trocadas naquele clássico deslize onde um conhece o outro. Mas o outro não conhece o um.
Uma breve tensão no ar. Os amigos continuam andando. 

Quando o sicrano pergunta para o fulano:
- Quem era o estranho?
- Eu não sei! Mas sei quem é aquela ali do outro lado da rua… ô gostosa!

A gostosa caminhava na direção oposta.
Foi atropelada quando olhou. 
Era a chefe do estranho.

18 de setembro de 2014

Quando o coração foi parar no divã


Em boa parte da minha vida, meu coração se manteve preguiçoso, pulsando o suficiente para viver. Mas por alguns momentos, ele teimou em bater de um jeito mais intenso. Não me dava conta desse descompasso cardíaco, nem comunicava às autoridades médicas. Acha que a razão simplesmente não cabia naqueles momentos. Nessas horas, perdia o sono, a concentração, o juízo. Acabei pagando por isso.  


Já dobrando os 30 anos, na esquina da frustração com o desencanto, voltei a sentir aquele pulsar estranho. Só que dessa vez, deixei meu lado poeta de lado e assumi a poltrona do médico-psiquiatra. Coloquei o sentimento no divã:

- Fale, meu amigo. Por que a essa hora? De uma forma tão aleatória? Não me diga que foi a... 

[ ... ] 

- Mas não pode ser! Você não pode se alterar todo por alguém que nunca viu. Entendo que ela pode parecer ser bonita, atraente e inteligente, mas você mal falou com ela. Aquilo era só um perfil digital. Ninguém altera 80% os BPMs por isso. Convenhamos! Use teu lado inteligente do ventrículo esquerdo e me diga se isso faz algum sentido.

[ ... ] 

- Sim, já assisti aquele filme. Como chama mesmo? Her, né?

[ ... ] 

- Ok, Seu Joaquim Phoenix de Guarulhense. Pois eu lhe pergunto: ela te ajudou a instalar algum aplicativo no celular? Te deu direções via GPS para chegar até o hospital quando você estava com dor de cabeça? Te fez companhia nas noites que você simplesmente não conseguia dormir? 

[ ... ] 

- Viu! Sua ideia de ser-humano digital está bem longe da eficiência da Scarlet Johansson. Lamento, mas seu caso é grave, vou até prescrever um ansiolítico. Mas se piorar, vai ter que tomar Prozac. Na veia. 

[ ... ] 

- Claro que receito! Aliás, veia é o que você mais tem. Se bem que já tenho uma noção da causa. Olhando o Guia Médico de Tecidos moles, acho que seu caso é clássico. Você foi pego por um vírus. Seu desarranjo está batendo assim por uma... ideia.

[ ... ] 

- Pode parar! Não me venha dizer que estou delirando. O paciente aqui é você e a consulta custa caro.

[ ... ] 

- Olha, os sintomas são justamente esses. Um baticum desritimado fruto de uma ideia que se alojou no apêndice auricular direito. Uma ideia de podia estar chegando um outro coração bonito, inteligente, criativo e bem composto para ser tudo o que você sonhou um dia. Alguém encaixe direitinho nos seus sonhos ventriculares. É ou não é?

[ ... ] 

- Eu sei, meu amigo. Não há o que se lamentar. Acontece com todo coração. Acredite. Mas é bom você se ligar.

[ ... ] 

- Por que? Oras, isso não é a primeira vez, né? A hora que acaba o período de incubação do vírus, logo você percebe que do outro lado não existe nenhuma criação divina. De repente, vai descobrir que ela tem um dedo torto, espirra engraçado e ou tem buço. Talvez possa até gostar da Paula Fernandes. Daí o que acontece? Me diga?

[ ... ] 

- Viu… você já sabia do que eu estava falando. Mas alguém já te explicou como se pega isso?

[ ... ] 

- O nome da causa é simples. Stress.  

[ ... ] 

- Sei bem que todo mundo hoje sofre disso hoje em dia. Mas no seu caso, é de outra ordem. Se chama Stress Paixonizíaco. É quando você vai guardando dentro de você esse desejo de acelerar por muito tempo. Vai guardando, guardando até ele explodir. Como um vulcão ou uma espinha de adolescente.  

[ ... ] 

- Sim, é isso aí! Esse é o problema! Acaba sendo sentimento mais egoísta. O outro vira uma desculpa pra explodir. Você está querendo é se enganchar em alguém pra deixar o coração acelerar. Mas não daria para acelerar esse beat diante apenas da beleza da própria vida. Independente do outro? Será que essa paixão não consegue existir só com você? Ou melhor, entre a gente? Não dá pra deixar o outro fora dessa história?

[ ... ] 

-  É. acho que me expressei mal. Talvez não seja colocar o outro fora. Mas talvez é seja vibrar acelerado com a própria vida. Assim quando alguém aparecer de verdade e fizer sua pressão sangüínea subir você não vai ter todas essas dúvida, nem vai estar perdendo seu tempo no meu consultório. Provavelmente vai estar lá fora feliz da vida. Batendo acelerado, como numa corrida. Só que dessa vez em dupla. E não com um perfil digital, nem uma idealização que não existe. 

[ ... ] 

- Toma… pega aqui um lenço. 

[ ... ] 

- Obrigado, mas não precisa me agradecer. Só toma mais cuidado. E a consulta custa 100. 

6 de setembro de 2014

Meu primeiro encontro

1. Meu primeiro encontro dos tempos analógicos

Querido diário,

Conheci uma garota que me deixou mais estranhou do que a vez que tomei cinco Yacults. 

Foi durante o baile do tio Alex no acampamento do NR. 

Era uma roda onde as meninas ficavam no círculo de fora e os meninos no circulo de dentro. 

Toda vez que a música parava, a roda girava e os meninos trocavam de par. 

Fiquei ali rodando que nem barata tonta ouvindo Laura Pausini. 

Foi quando ela apareceu. Era alta. Nem parecia que tinha 12 anos. Ela me deu sua mão quentinha e começamos de novo. Em pé de valsa. Dois pra lá e um pra cá. 

Coloquei a cabeça no peito dela e fiquei lá. Tinha um cheirinho de leite de rosas. Aquele da embalagem rosa, sabe? Tava tão bom que nem ouvi a música acabar. 

O Marquinhos percebeu que eu não ia mudar e foi direto para a outra garota do lado. O Fábio me disse que todo mundo ficou me olhando, porque eu fui o único menino que não mudou de par naquela noite.

Quando acabou a brincadeira, eu não queria que ela fosse embora. 

Perguntei se o quarto delas tinha perdido ponto por não arrumar a cama. 

Pra minha surpresa, ela adorava conversar. Ficamos ali a noite inteira. 

Lembro até que ela me falou que seu o pai via espíritos. Eu perguntei o que é espírito. Ela me disse que é o você vira quando morre. E que espírito faz tudo igualzinho o que a gente faz aqui. Só que diferente. Fiquei confuso, mas ela me disse pra ler "Violetas na Janela" que eu ia entender.

Comprei o livro assim que cheguei em casa. 


O livro está comigo até hoje. Já li ele várias. 

Ela, eu sempre procurei, mas nunca mais encontrei.

2. Meu primeiro encontro dos tempos digitais

Querido secret,

Hoje meu Tinder deu match com uma garota. Decidi puxar assunto. Perguntei o que ela fazia. Disse que era arquiteta. Eu disse que legal. Ela perguntou o que eu fazia. Eu disse que era publicitário. Ela disse que legal. Fiz mais uma meia dúzia de perguntas até pedir o Whatsapp dela. Ela me deu o número e eu já convidei pra sair. Fomos num bar na Vila Madalena. No caminho nos falamos mais uma vez pelo Whastapp. Estou perto. Estou chegando. Estou na porta. Oi, Fernanda? Nos encontramos, sentamos na mesa, cada um de um lado. Fizemos algum comentário bobo de qualquer coisa. O garçom apareceu o nos entregou o cardápio. Silêncio. Ela olhava o cardápio. Eu também. Não queria nada. Puxei assunto de novo. Perguntei se morava longe daqui. Ela disse que não. O garçom apareceu de novo quebrando a proximidade que construí. Pedi um suco de laranja. Ela uma cerveja. Inventei que não estava bebendo por causa dos antibióticos. Um dia ela vai descobrir que eu não bebo nunca. Falamos de mais algumas amenidades. Ela me falou da mudança dela. Falou do cachorro. Do ex-namorado insensível. Eu falei da vida em agência de propaganda. De corrida de aventura. Falei mal do Tinder. Ela também. Comemos alguns petiscos. Não me lembro do que era. Ficamos em silêncio por um tempo. Climão. Ela foi ao banheiro. Pedi a conta. Ela voltou do banheiro. Mencionou pagar. Eu disse que fazia questão. Pensei na minha conta em vermelho no banco. Rezei pro cartão passar. O cartão passou. O garçom foi embora. Climão máster no ar. Hora da despedida. Ninguém sabe o que faz. Dois corpos estranhos. Meio abraço. Meio beijo no rosto. Ela pede um taxi. O taxi chega. Ela entra no taxi. Eu vou embora. Com o Tinder na mão.

25 de agosto de 2014

Diário de bordo de um líder capitão em construção

Era por volta de meio-dia. Fazia duas horas que pedalávamos naquelas montanhas. Eu ia na frente, escolhendo os caminhos, cuidando para não errar. Ela vinha atrás, buscando me acompanhar. Às vezes, ela não conseguia e ficava pra trás. Entretido com o mapa, com o tempo e o caminho, eu mal notava. De repente, me via sozinho. Parava e tratava de esperar.

Fiz isso algumas vezes e, enquanto isso, ia me poupando.

Foi quando chegamos bem em frente a uma grande montanha. Muito íngreme.

Senti que era hora de me colocar à prova. Vinha treinando há meses para enfrentar um desafio daquele.

Não pensei duas vezes. Abaixei a cabeça e comecei a pedalar. Aos poucos, ia passando algumas pessoas que empurravam suas bicicletas. Me sentia ótimo. Estava bem concentrado. Evoluía devagar, mas de forma constante. Até que as pernas começaram a dar sinais de cansaço. A bicicleta bambeou. Mas não. Não seria aquele dia que iria perder. Suor. Batimento acelerado. Falta de ar.

Mas quando tudo estava no limite, cheguei ao topo. Superei aquele monte dos infernos. Vitorioso!

Vitorioso?

Nem pouco.

Na ânsia de me superar, olhei tanto em mim que esqueci que eu fazia parte de uma dupla. Ela havia ficado pra trás. Parei em uma bifurcação e decidi esperar.

Depois de alguns minutos, ela apareceu e não vinha com uma cara muito alegre. Mais do que ter dificuldade em completar o trecho, seu pneu havia furado. Ela ficou pra trás e sem ter com quem contar pra resolver o problema.

Senti que havia errado, mas não dei tanta importância naquele momento.

Mas, ao voltar um século na história, percebi a gravidade do meu erro.

Há exatamente 100 anos, no mesmo hemisfério que eu e minha parceira estávamos, o explorador Ernest Shackleton viveu uma das maiores aventuras do homem na terra.

Inspirado pelas grandes descobertas, Shackleton tentou cruzar a Antártida a pé. Porém ele nunca chegou lá. Seu barco ficou preso em uma massa de gelo no mar de Weddell. Ele e mais 27 homens em 1914! Sem ter pra onde ir. Sem ter a quem chamar. Sem internet, nem Whatsapp.

Pra piorar, o barco foi pressionado pelas massas de gelo e acabou destruído. A tripulação ficou à própria sorte por quase dois anos.

Durante todo esse tempo, Shackleton não abandonou em nenhum momento seu posto de capitão. Não abdicou da responsabilidade sobre aquelas 27 vidas.

Nos dois anos naquele deserto de gelo, ele decidia pelos mantimentos, elaborava planos de fuga e gerenciava os ânimos para que nenhum de seus homens deixasse de acreditar que era possível. Pensou no seu time o tempo inteiro.

Seus próprios homens diziam:

“Para a liderança científica, o melhor é Scott; para viajar depressa e com eficiência, Amundsen; mas quando você está numa situação perdida, quando parece que não há mais saída, ponha-se de joelhos e peça a Deus que seu chefe seja Shackleton”.

Em maio de 1916, pela força do próprio grupo e a dedicação de um verdadeiro líder, todos os homens chegaram a salvo na ilha da Geórgia do Sul.

Só a força do grupo para sobreviver às condições mais extremas já seria uma grande lição - aguentando molhados frios de -28ºC!

Mas a obstinação do capitão pela segurança do grupo me mostrou que ainda tenho muito que evoluir nessa matéria.

Desculpa parceira pelo meu erro. Ainda sou um líder em construção.

Mas ainda bem que era só um pneu furado.

16 de março de 2014

Cartinha pra primeira namorada

Ontem fazendo a mudança na casa da minha mãe encontrei no meio do quartinho de bagunça uma sacola empoeirada.

Nela havia várias jóias que o tempo tinha apagado o brilho. As jóias eram todas as cartinhas que você me deu quando namorávamos, 15 anos atrás. Mas bastou abrir e ler uma por uma pra que elas pudessem voltar a brilhar com frases como:

“Triste que a gente vai sair de férias e não vamos poder ficar juntos”

“Que bom que você veio estudar aqui em casa”

“Preciso ir, tenho aula do Anchieta, mas amei a lapiseira que você me deu"

Essas palavras me fizeram lembrar daquele sentimento ingênuo que nasce com o primeiro amor. Um sentimento pouco diferente do que temos quando adulto, já calejado de tanta desilusão. Hoje um "te amo" sai medroso, com muito mais prudência e canja de galinha.

Mas nas suas cartas não, eles estavam sempre lá.

Suas não. Ou melhor, não da mulher casada que já pensa em ter filhos. Aquelas cartas são daquela garota medrosa, risonha e amorosa que nesse domingo apareceu aqui em casa.

Se tive sorte de reencontrá-la de novo, mais sorte ainda tive de viver meu primeiro amor em um tempo em que namorados realmente se escreviam.

Fico pensando no futuro. Como as pessoas poderão ter essa sensação de boa se as cartas hoje estão mais para mensagens de Whatsapps e Facebook? Por mais que existam históricos em servidores da Califórnia, nas nossas cartinhas as palavras eram o que menos importava.

Com as linhas tortas, desenhos e corações pintados ainda hoje consigo sentir o carinho daquela menina. Em cada um dos bilhetinhos ela vacilava:

“Isso não está bom, eu ainda não disse o que queria dizer”.
Coisas que só acontecem quando a gente escreve uma carta.

Por isso, nessa noite, queria te agradecer em forma de... carta.
Claro, sem a grandeza de cada bilhetinho que um dia recebi.

Uma carta que talvez se perca nesse mundo efêmero. Talvez você nem leia.

Mas uma carta que registre no cartório da internet a alegria que senti. E que no final feche com um pedido de primeiro namorado:

Se hoje você deixou de escrever cartinhas para o seu amado, seu marido, por favor, volte. O mundo realmente precisa desse sentimento gostoso que vem junto com a folha embrulhada.

Seja quando a gente recebe uma cartinha ou quando a gente reencontra com ela no fundo de um quartinho de bagunça.

Obrigado.
Danilo

12 de fevereiro de 2014

No calor das emoções



No frio da Finlândia, pesquisadores decidiram mapear as ondas de calor das emoções humanas. Foram mais de 700 finlandeses participantes - claro que se fosse num país como o Brasil, com meia dúzia de gente já teríamos calor pra esquentar toda a Europa. 

Mas, o mais interessante do estudo é que o resultado das imagens de calor das emoções no corpo materializam aquelas metáforas sobre os sentimentos que todo mundo tem numa mesa de bar.

Por exemplo, a Felicidade. Dentre as emoções, é a única que esquenta todo o corpo. Tudo a ver com aquela sensação que a gente tem quando ajuda alguém com o carrinho do supermercado ou se lembra que é sábado e que não precisa trabalhar. Um sentimento que nos esquenta dos pés à cabeça. Do corpo à alma. 

Felicidade. Uma emoção que é o oposto da Depressão. Uma emoção que além de provocar um vazio no peito, esfria todo o resto do corpo. É como morrer por dentro. Em termos de ondas de calor, um vazio quase comparado somente com a Tristeza. Essa sim, ainda tem um pontinha de calor. Talvez, porque a Tristeza e a Felicidade andam lado a lado. Uma precisa de uma pontinha da outra pra ser completa. 

Outra emoção interessante é a Ansiedade. O mapa mostra uma onda de calor concentrada na linha do peitoral. É praticamente a radiografia daquela bola verde e gosmenta que surge no peito da gente quando resolvemos checar o perfil daquela tal pessoa só pra saber o status continua sendo “loucamente apaixonada pelo namorado”. A Ansiedade é uma chama leve e persistente. É o fogo baixo que queima em banho-maria a esperança de viver um grande amor. 

Agora, quando o grande amor acontece... 

O Amor é a emoção que mais se aproxima da Felicidade. Mas enquanto a Felicidade é equilibrada, uniforme e integral, o Amor são chamas que explodem em três principais partes do corpo. A primeira na cabeça. Afinal, quando o amor vem, a dúvida chega também. E não tem cabeça que que não arde. Depois, claro, o próprio peito. E esse calor que o Amor provoca nenhuma outra emoção é capaz de provocar. É  uma bomba de Hiroshima que explora entre os mamilos. E por último, o calor que fica na linha da cintura. Porém aqui, Amor talvez possa ser substituído por Tesão. Afinal, amor de verdade queima no peito e traz a dúvida e se implode em tesão até de madrugada.

Aqui, consideremos um desvio padrão entre a Amor e Paixão. Afinal se nós que sofremos todos os dias com eles distinguimos bem um do outro, os cientistas finlandeses mais frios que minha Brastemp não teria como traçar as diferenças com propriedade. 

Agora se o amor não era amor, era cilada, então a Raiva chega batendo forte. Literalmente . Esse é a emoção onde as mãos e os punhos mais esquentam. Daí aquela vontade de socar o maldito que nos trocou pelo happy hour com galera do trabalho, e em especial aquela megera do RH.

Mas, se depois de tantas você se cansar e o perdão cansar de perdoar, então vai surgir uma emoção que começa na cabeça e desce em uma linha reta até a ponta da cintura. Desgosto é uma emoção que em funil até no fundo da nossa alma. Ela só faz afundar todo um sentimento que a gente tem e vai parar bem na bunda. Como se a gente dissesse com nossa emoção. “Chega, eu estou cagando pra você”. 

A TEORIA NA PRÁTICA

Logo em seguida dessa pesquisa li uma coluna com o título “Há sexo casual para as mulheres”? 

Nela, narra-se a histórias de mulheres que se permitem a liberdade do sexo casual. Vivem noites maravilhosas, mas se frustam quando seus parceiros somem no mundo. Bate a Frustração, emoção que de tão confusa, não foi mapeada pelo estudo.

Aplicando o estudo para a prática de uma noite de sábado, pergunto:

Do primeiro encontro, primeiro beijo, à despedida da manhã e ao sumiço do dia e meses seguintes, Quantas emoções as mulheres não vivem com seus amantes? 

Quantos calores e frios elas sentem? 

Mas talvez essa nem os cientistas finlandeses, nem o Climatempo poderão responder. 


No mapa da vida real, as emoções das mulheres são imprevisíveis. 

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/equilibrio/151651-emocoes-mapeadas.shtml

10 de fevereiro de 2014

Vovô prematuro

Vô, você que já passou por isso, me tira uma dúvida?

Agora que estou chegando na beirinha dos 30, percebo algumas coisas estranhas em mim. Ainda são coisas pequenas, mas tenho medo que elas comecem a tomar forma como aquele feto que vai crescendo na barriga da mãe em câmera acelerada no Discovery Channel. E de repente, pimba, já virei um vovô como o senhor.

Veja se é coisa pra me preocupar:

- Nessa semana nasceu um pelo na minha orelha esquerda. A direita ainda está pelada.

- No domingo, percebi que tenho prazer em andar de metrô lendo a Folha e até errar a linha fazendo. 

- Ler o iPhone no carro passou a me dar dor de cabeça. Aliás, toda hora que leio meu Iphone meu cérebro me pergunta: “pra quê”? 

- Fui em um aniversário e meia hora depois queria ir embora. Meia hora e dois minutos já tinha indo sem me despedir de ninguém.

- Minha paciência com papos desinteressantes está se reduzindo como o reservatório da Cantareira. Está na casa dos 20% e caindo.

- Troquei a noite pelo dia. Acordo às 6h pra correr. Será que o dia que trocar a corrida pela caminhada é que virei mesmo vovô?

- Dia desses esqueci de pagar a conta e fui no banco na hora do almoço. A moça do caixa foi tão simpática que pensei em voltar.  

- Arrumar a casa virou um hobby e sinto compaixão pelas minhas plantas. Sair de casa sem rega-las é sair com um nó no peito.

- Entro no Facebook do meu irmão todo dia só pra ver como está meu sobrinho. Crianças mudam do dia pro outro, não mudam?

- De repente me bateu uma saudades de coisas que ninguém mais conhece, como o disco do Axé Bahia 96. Ninguém sabe uma música do Axe Bahia 96 e nem o que é disco.

- Por fim, desisti, ainda que por hora, de encontrar a tampa da panela, o chinelo para meus pés cansados. Vi negócio é eu mesmo fechar a tampa pra não vazar a minha sopa e pros pés cansado descobri uma ótima dica de escalda pé com alecrim e sal grosso. É tiro e queda.

- Por último, passei a usar gírias. Como Tiro e queda que eu usei ai em cima. 

Que você acha vô, é grave?

Tá mesmo nascendo um vovô, dentro de mim?

20 de janeiro de 2014

Quando chegar a hora

Um dia, eu também vou voltar. Cansado de uma longa e intensa viagem. Minha mãe também estará aflita no portão, vasculhando a rua em busca de algum sinal meu. Quando chegar, também vou ganhar aquele carinho no cabelo. Quem sabe não pinta uma lágrima, logo secada no pano de prato.

Meus irmãos chegarão, com a Juca atrás abanando o rabo. Todo mundo virá pra carregar as malas. E quantas malas eu vou estar carregando. Gente como a gente, precisa de muitas pra guardar todas as histórias que adoramos viver.

Assim que passar pela porta, vou ter a sensação de que o tempo por lá não passou. Acho que na nossa casa ele só passa uma vez por semana, junto com o moço dos Correios. Claro que minha mãe terá algo pra contar da decoração – "seu pai mexeu aqui e ali". Mas em casa, tudo muda só pra continuar como sempre foi.

Com calma, vou deitar e cochilar um pouquinho. Minha viagem terá sido longa. Ter medo do mundo cansa. Medo de não ser quem todo mundo espera. De não ser aceito. Do dinheiro não aguentar até final do mês. Medo de não pagar o aluguel.

Deitado no primeiro berço, não vou precisar me preocupar mais. É só se deixar levar pelo som da panela de pressão cozinhando o feijão ou das louças lavadas na pia. Nesse barulinho bom, vou indo, indo pra cada vez mais sentir que cheguei.

Quando a gente se vai, nunca pensamos em voltar. Bobagem. Um dia, todos voltaremos. Pode até ser que sua casa não seja igual a minha. Pode ser até que ela não exista com concreto e chaminé. Pode ser um braço ou melhor, um abraço. Dos que resumem toda a saudade do mundo, acumulada por anos-luz de distância.

Mas precisamos de casa. Pra ela é que voltamos quando a aventura termina – e se termina é porque outra precisa começar. Essa é nossa vida. Ir para voltar. Melhor do que quando fomos, mas nunca maiores. Afinal, nunca seremos do tamanho do amor que nossa casa tem aos nos receber. 

Por isso precisamos partir. 
Partir pra ter a delícia de voltar.

14 de janeiro de 2014

Despedida fria

Menos de uma semana e você foi embora? Sem falar nada de repente, acabou? É isso? Rídiculo. 

Foi rápido. Como começou, acabou. De repente, chego em casa e você não está mais lá? 

Quem você pensa que eu sou? 

Primeiro você chega, deixa minha vida mais leve, simples. Saber que você estava lá já era o suficiente pra tudo ficar mais gostoso. 

Não tinha aquela de compromisso. Imaginei ter deixado isso claro. Era só pegar. Só pra acabar com o desejo. Não tínhamos rotina. Era de manhã, na hora do almoço. Na janta. Era uma relação aberta. Vivíamos misturando. Sempre tinha espaço pra mais um. 

Mas não. O tempo passou e nos consumiu. E sinto dizer: foi você que estragou. 

Não vou ficar nessa de viver o luto. Vou sair por aí e procurar outro. Quem sabe eu não acho um melhor... ou mais barato.


Vai pro lixo, Peito de Peru.

7 de janeiro de 2014

Técnico em ar condicionado morre após sete horas de sono

Nesta madrugada Josmar Neves, 30, foi encontrado morto no seu aposento mais seco que palha de milho por conta da onda de calor da madrugada que atinge São Paulo. A vítima, que já tinha propensão a sudorese, perdeu tanto líquido que transformou o colchão em um colchão d’água.

Para a esposa, Neves não deu ouvidos às recomendações de fazer pausas de duas em duas horas no sono para tomar um litro de água. Depois de uma semana sem conseguir consertar o próprio ar condicionado, Neves tomou um calmante "on the rocks" e apagou. Sua esposa percebeu o ocorrido apenas quando acordou assustada imaginando estar sofrendo mais uma inundação do Rio Tietê.

Porém, quando olhou para o lado era tarde demais.
Neves já tinha derretido.

30 de dezembro de 2013

Royal na cura da AIDS

Os esotéricos previram que em 2013 um um novo medicamento substituiria o coquetel AZT no combate à AIDS. Como a grande novidade não aconteceu, resolvi dar um apoio à turma do futuro e imaginar também como seria a chegada dessa notícia estrondosa:

GELATINA ROYAL NO COMBATE À AIDS

Cientistas do laboratório de Medicina Criativa da Universidade de Angus MacGyver
descobriram que é possível substituir as membranas das células por uma solução gelatinosa Royal sabor framboesa e com isso impedir avanços de importantes doenças imunodeficientes.

Para conquista essa proeza, os cientistas conseguiram “enganar” o RNA proteico das células com uma nano aplicação da gelatina Royal. Durante a fagocitose límbica, os leucócitos entendem o vermelho Flamengo da gelatina como o resultado umectante do processo de fagocitose. Assim, eles substituem a membrana atual pela gelatina.

“Assim que o ser estudado pega uma friagem, as membranas adquirem uma consistência gelatinosa, o que impede que as células se caguem inteiras pra fora de seus domínios”, afirma o chefe da divisão do laboratório, Pete Thornton. A dificuldade ainda está manter a consistência das células durante a época de calor e evitar o aumento de glicose no sangue de diabéticos, visto que todas as suas membranas estarão repletas de doces açucarados.

Segundo os estudos, a membrana gelatinosa Royal, conhecida como BOCAO-33 é mais resistente ao vírus da AIDS, contribuindo sistematicamente para reduzir os avanços da doença para as outras células. Os cientistas descobriram que o vírus de uma célula contaminada e substituída pelo BOCAO-33 não conseguem romper a membrana durante o processo chamado “Assalto ao Banco Central”. Assim, o vírus fica preso na membrana e não consegue se espalhar pelo corpo. As poucos, o vírus vai envelhecendo e se fundindo com o próprio núcleo celular.

Para alguns cientistas críticos à substituição, há o risco de que com a fundição celular, o vírus da HIV pode se tornar parte do DNA do ser humano e com isso, mais do que uma infecção das células, a doença poderia se espalhar por toda a composição genética do indivíduo.


“Num futuro próximo, por exemplo, é possível que as suas unhas já nasçam com AIDS. Ou os cabelos ou até mesmo aquela casquinha do joelho” afirma Steve McNamara, do laboratório de Huverdale, patrocinado pela Indústria Bioquímica TicTac – responsável pela produção dos atuais coquetéis AZT.

29 de dezembro de 2013

Imite a arte

Sabe por que a gente vai ao cinema?

Entramos naquela sala escura e ficamos duas horas sentados por uma única razão. A gente quer se emocionar. Quer viver as sensações intensas que buscamos driblar no nosso dia.

Claro. Ninguém gostaria de ser perseguido por bandidos, ver o namorado com a irmã no sofá ou ser perder na savana africana apenas com um chicote e um 38 na mão. Ninguém gostaria de passar por isso, mas já na pele de um herói...

Mas pra um herói viver esses grandes filmes, ele sofre um bocado. Pra uma boa história, nenhum herói pode ser perfeito. Walter White sofreu de câncer, mas mais ainda pelo futuro dos filhos. Vito Corleone negou a máfia até o momento da morte do pai. Bruce Wayne se veste de máscara e capa pra fugir da própria solidão.

Mas o cinema nada mais é do que uma vida comprimida numa película apimentada.

E nossa vida pode ser também um belíssimo roteiro de cinema, e nós os heróis de uma boa história. Daquelas que o tempo passa e a gente nem vê. Quando se dá conta já virou o vovô das histórias fantásticas que até o caçula da família dúvida.

Mas pra história ser boa, é preciso desejar o que ninguém deseja. É preciso olhar para o conflito, algo que a gente tem muita dificuldade de fazer.

Quando ele chega, é dose. Procuramos de qualquer jeito mandá-lo pra bem longe. Seja a vó que veio do interior pra uma visita inesperada, o chefe com um novo pedido ou uma menina bonita que cruzou seu olhar na esquina.

O conflito traz o desconforto, o medo, a dúvida. E agora? Mas fugir dele é burrice. Afinal, depois que ele se vai, adivinha o que se ganha? Uma boa história pra contar.

É preciso do conflito pra que existir emoção. É preciso da emoção pra uma boa história. E elas são tudo que a gente leva e deixa para as pessoas do mundo.

Sem a virada, sem o inesperado, sem o conflito, sem a tensão, sem o sonho, sem o desejo, sem a disputa, sem mundo jogando contra, sua vida tem mesmo graça?

2013 está indo embora. É tempo de uma nova temporada.


Quão disposto você está pra ser o herói de uma nova temporada ser incrível?