24 de dezembro de 2013

Nesse Natal, eu desejo...

Que o Papai Noel traga muita luz. Mas que essa luz toda não te ofusque a ponto de você sair por aí fazendo merda e confundir Luiza com Paulo Emílio. E que nem a sua luz venha ofuscar a minha. Se não o pau vai comer.

Que teu próximo ano te traga muita prosperidade. Pra você ficar fodão e sair pelo mundo cantando funk ostentação, com uma Range Rover. Mas só cuidado pra não ficar babaca postando foto #selfie no Instagram.

Que o Papai Noel te traga mais saúde que o Programa Mais Médicos. Afinal, não vai ser fácil aguentar chuvas, trânsito, manifestações, argentinos e eleições. E nem vem com olhar de coitado pra cima mim quando eu ficar gripado. Já tô avisando.

Que o bom velinho traga muito amor, vinho, tainha e muito sexo. Se você está comprometido, arrume inspiração e transe o máximo que puder. Se está solteiro: Tinder, o app da alma gêmea. Se não rolar, transe com você mesmo J

Que na sacola, venha paz. Mas não muita, senão fica blasé. Se você quer paz mesmo, sobe as montanhas e fica lá em cima meditando. É triste saber, mas só sua existência na Terra já fode com a paz de muita gente, ainda mais quando você esquece a chave e o vizinho não tem como tirar o carro.

Que seu Natal seja repleto de muitas realizações. Como terminar aquela faculdade que você finge que nunca existiu, ir duas vezes por semana na academia ou parar de ficar reclamando na rede social, como eu tô fazendo com esse texto aqui.

Que o papai Noel te dê muito foco pra você não ficar até as três da manhã vendo merda no 9gag e no dia seguinte morgar a manhã inteira com a tela do messenger aberto tomando o tempo dos outros. De novo. Você fode com a paz de muita gente.

E, por fim, que ele também te dê muita sinceridade pra você criar vergonha na cara e não ficar replicando mensagem de auto-ajuda. Seja no Natal, Ano Novo, Páscoa ou aniversário. Se você quer melhorar a vida de alguém, pague a consulta do terapeuta. Senão, viva bem a sua.

Natal é isso aí. Um dia pra desejar o melhor pra todo mundo. Mas ainda bem que é só um dia. Senão ia ser bem babaca como a propaganda do fim de ano da Globo.


Esses são os meus mais sinceros votos pra você.
Agora vai beber e sai do Facebook.

24 de novembro de 2013

É grave, doutor?

Doutor, carrego dentro de mim algo estranho. 

Ele está situado bem abaixo da linha do peitoral e um pouco acima do umbigo. Pela última ressonância laboratorial, essa coisa estranha se assemelha a uma bolota feita de pequenas fibras verdes entrelaçadas. Perguntei para o técnico do laboratório o que era e ele disse que talvez fosse um “sentimento”. 

Você consegue ver isso, Doutor? Sentimento é uma bolota cheia de fios verdes que se mexem em movimentos circulares abaixo da linha do peitoral e um pouco acima do umbigo?

Doutor, quando essa bolota se mexe, eu fico estranho. Inquieto. Não consigo concentrar, focar. Por que é que me sinto assim?

Já estou com ela há algum tempo. Mas como não cuidei, parece que essa bolota cheia de fios verdes cresceu e começou a ocupar o lugar do coração.


Digo isso, porque ela parece estar de alguma forma associada à relação que tenho com mulheres e ao amor. Não com uma mulher específica. Mas entre eu e todas as mulheres do mundo. Ou a falta de uma, em específico.

A medida que essa bolota vai ocupando o espaço dedicado ao membro central pulsador de sangue e amor, todo o resto do meu corpo parte para uma postura de defesa e aciona anticorpos que impedem que meu coração fique vazio. Nesse momento, meu corpo inteiro é tomado por uma sensação de desconforto e irritação, com aumento repentino de pressão e sudorese.

Com isso, sou acometido de espasmos físicos que me impulsionam a abrir o Facebook e a checar o perfil daquele antigo affair que um dia eu desejei e que poderia ter sido algo. Nunca foi. 

Essa atitude de defesa corporal me faz checar todas as suas fotos divertidas e sempre sorridente. Acompanhar todos os seus posts. Ler todas as referências que posta em sua timeline. Porém, essa atitude de contra-defesa feita para evitar que aquela bolota ocupe os espaços tem tido um efeito adverso.

Ao checar o sorriso daquela garota, a cor de seus cabelos e outros pequenos detalhes da sua vida banal, a bolota se mexe de forma ainda mais efusiva. Parece ocupar de forma ainda mais rápida o espaço do coração.

Sabe Doutor, parece que acabo entrando em uma disputa da qual sou apenas o espectador. Um UFC repentino entre meu coração e a bolota verde. Com ligeira vantagem à bolota verde, ocupando praticamente todo o centro do ringue.

Esse processo, ficou um pouco mais agudo nos últimos meses dado aos avanços digitais do amor.

Parece que minha bolota disforme, verde e fibrosa é estimulada pelo uso constante de aparelhos móveis inteligentes e de um aplicativo específico, o Tinder.

De nome fofo, esse app tem provocado movimentações consideráveis à minha bolota fazendo ela crescer exponencialmente em direção ao meu coração. A batalha está praticamente vencida.

Doutor, se você não conhece, no Tinder sua face é exposta e avaliada pelas mulheres e vice-versa. E por um simples toque, sua vida pode se aproximar ou se afastar de outra para sempre. 

Assim, num descuido do dedão, destinos poderão se cruzar. Ou não. Famílias poderão se juntar. Ou não. Filhos poderão nascer. Ou não. Lápides poderão ser construídas para toda uma nova família ser enterrada. Ou não. 

Você consegue imaginar o peso de um dedão nessas horas, Doutor? Pois é.

Meu corpo em uma atitude de desespero, vendo que acompanhar a timeline do Facebook da tal senhora já não oferece o mesmo efeito, me impele a abrir esse tal de Tinder.

Acontece que o mundo é muito grande e meu corpo pouco inteligente achou que a melhor forma de solucionar esse descompasso psico-biológico que carrego é se jogar em uma roleta russa do amor e esperar resultados.

Ao acompanhar minha vó no bingo de toda quarta, vi que remediar sentimento torto com jogos de azar não me parece uma solução adequada.

Por isso, peguei a carteirinha do convênio e resolvi te procurar. 

Existe algo que o senhor possa fazer à respeito? Estou um pouco preocupado. 

Vai que daqui a pouco essa boleta verde, gosmenta, fibrosa, com líquido aquoso e com aparência e aspecto de miojo esquecido na panela com água de pia do fim de semana ocupe de vez o espaço do coração. 

Aí já viu. Lá se vai mais um poeta do mundo.

16 de novembro de 2013

Discurso bêbado de irmão no casamento

Todo mundo que está aqui e tem
Um irmão sabe como é ou um dia vai saber o que é ver um irmão casar. 

Irmão é aquela pessoa que quer você queira ou não vai estar sempre do seu lado. Por que o que os une é algo inseparável. Sangue. E isso não dá pra muda com transfusão. 

Irmão. Sempre esteve e sempre vai estar do seu lado. Como naquelas madrugas viradas nas ferias com o vídeo-game ligado. Você lá torcendo pra ele passar de fase. Ou ele indo te pegar no metro de madrugada, mesmo de cara amarrada. Mas ele sempre vai estar lá. 

Com cara amarrada ou não. Com porrada ou um uma risada, irmão sempre cuida. Só não deixa isso explícito por que afinal, é irmão. Não é mãe. Mas ele esta sempre vai cuidar de você. 

Nessa noite eu divido esse cuidado com a Gabi. 

Gabi, e Leandro, espero que vocês cuidem muito bem do nossos irmãos.  Como a gente cuidou até agora. Pode até ter alguns desentendimentos, afinal convivência nunca é fácil. Mas que, assim como os irmãos fazem, passam por cima de tudo. 

Afinal o que os uniu é tão forte quanto o sangue que corre nas nossas veias. 

Sejam felizes. Sempre. Como nós somos com os irmãos que a gente tem. 

Boa sorte. 

Danilo, Fabiano e Camila. 

28 de outubro de 2013

Valsa do balão

Edualto veio ao mundo
Diferentemente 
De todos balões. 

Foi um caso engraçado,
Meio apaixonado,
Quando ele nasceu. 

O dono da venda
Se encantou com a
Moça bela 
Da loja de renda
Que apareceu

Fui um susto e tanto. 
Um verdadeiro encanto 
Que o atrapalhou.

Perdeu na contagem,
Errou a calibragem,
Quase que explodiu. 
 
Do quiosque
Foi pro alto
O balão Edualto
O maior que existiu.

Na venda era atração.  
Vinha pai, filho e anão 
Todo mundo sempre a perguntar. 

Como pode esse balão 
Ser tão grande 
e não estourar?

Num dia qualquer
Uma garotinha rica
Apareceu.  

Chorou, bateu o pé. 
- Esse balão 
Tem que ser meu. 

O pai logo disse:
O preço que for  
Dinheiro tem senhor
Esse ai vou levar! 

Agora o grande balão. 
Estava em outras mãos 
Que só queriam o puxar.  

- Volta já pra cá,
Danado balão. 
Que eu quero é te abraçar. 

Mas o coitado 
Não queria abraço. 
Queria mais é voar.  

Foi um arranca rabo 
Cada um pra um lado
E a linha se partiu. 

Novamente
Foi pro alto
O balão Edualto
O maior que existiu.
 
Tão pro alto ele foi
Que no teto 
Ele chegou
Estava tão vazio.  

Não via a venda, 
Nem a moça da renda. 
Qualquer coisa pra admirar. 

Era tanta solidão 
Coitado do balão 
Foi perdendo o ar.   

Pesado foi caindo
Triste foi caindo
Não tinha como parar. 

Uma lança de portão 
Esperava o no chão 
Esse era o seu fim. 

Quase que encostou. 
Mas o vento empurrou
Ele foi parar lá no jardim. 

Ufa, mais que susto. 
Isso não era justo
Com o balão robusto
O maior que existiu. 

Pensou no que viveu
Do dia em que nasceu
Logo ele sorriu. 

Foi só ele sorrir
Pra um pouco ele subir
E se encher de ar. 

Subiu um pouquinho. 
Deu oi pro passarinho
Que estava a piar. 

E mais leve
Foi pro alto
O balão Edualto
O maior que existiu.

Nessa foi-se o dia 
E, no prédio mais alto, 
Foi ele descansar. 

Quando ele chegou
A voz ali chamou
- Balão grandão 
Aqui é o meu lugar.  

Era outro balão
Chegou de supetão. 
Tem algo ai no ar!

- Nunca vi balão
Tão diferente assim
Nem aqui, 
Nem em outro lugar. 

Eu sou o Edualto. 
O balão do alto
E você quem é?

Sou um balão menina
Eu sou gente fina
Chamo Laís Cima. 

E apaixonado
Foi pro alto
O balão Edualto
O maior que existiu.

Foi assim que começou 
Uma história de amor
Nos ares do Brasil. 


19 de setembro de 2013

O momento do fim

Foi lá no sítio do Valdir durante o feriado de Corpus Christi.
Naquela época você não era minha Suzana.
Era apenas a amiga da Mariana.
A amiga da Mari que descansava a cabeça no meu colo. 
Vi seus olhos fecharem em paz e em alegria.

Diferente dos mesmos olhos que vejo agora.

Não entendo porque você realmente quer partir, Suzana. 
Se é do seu desejo, não posso fazer nada.
Mas por que tanto chora? 

Já se passaram mais de duas horas que você está ai acabada no sofá.
Duas horas de olhos marejados.
Agora está fria, Suzana. 
Seu rosto empalideceu.
Não se move mais. Congelada pelo teu coração.

São raras as palavras que saem da sua boca.
Entre as lágrimas, balbucia frases desconexas.
Muito diferente da minha Suzana falante
Que adorava trocar confidências nos intervalos do sexo.
Medo de amar, vontade de ser mãe, ter uma casa em Ibiúna.
Aquela Suzana agora só é um pretérito imperfeito.

Já são três horas, Suzana. É domingo.
Preciso trabalhar amanhã. Não posso mais aguentar isso.
Quer que eu diga, é isso? Não tens coragem? 
Isso me tortura, Suzana. 
Sou eu que devo matar nosso amor na última da palavra?

Agora quem é o covarde, hein?
Não foi isso que você disse que eu era, 
lá na pousada em Ubatuba quando tivemos um quebra-pau por causa do teu primo alcóolatra?

Tudo bem, eu falarei.
Já não aguento mais esse sofrimento.
Chega. Acabou. 
Esse é o teu desejo. 
Prefiro ter a palavra final do que esse teu lamento sofrido. 

Vai embora. 
Vai pra casa da Mari.
Será mesmo um alívio.
Já se passou quase uma semana que por aqui você não aparece.
Não deu notícias e eu tendo que conviver com a sombra das tuas coisas.

Pois quer saber?
Eu mesmo é que estou abrindo seu armário. 
Recolhendo suas roupas, enquanto você apenas assiste.
Coloquei tudo naquela mala de viagens que sua tia de NY emprestou pra gente e você nunca devolveu.
Você nunca devolve nada mesmo.

Tá tarde.
Vai. Preciso ficar só e me recompor. 
Tuas coisas já estão no porta-malas do carro..
Aquele mesmo que carregou o armário da Tok Stok que a gente comprou
e colocou no teu carro porque ficaria mais barato.
Se coube um armário, porque não caberia essa tua indiferença agora?

Vai Suzana. Deixa o controle. Deixa a chave. 
Quando sair, deixa nosso amor na frente do prédio.
Quem sabe na terça o lixeiro passa recolhendo…


Adeus.

*Inspirado na música "Que seja bem feliz" de Cartola
http://www.youtube.com/watch?v=eubjeTCiUbY

22 de agosto de 2013

Sonho de casa é casar

Minha casa hoje vai dormir em paz.
Depois de um ano, hoje ela finalmente se sentiu... em casa.

Casa que é casa quer ser muito mais do que ser uma boa viga e bom cimento.
Casa que não quer ser casa é abrigo, moradia, habitação. 
Uma caixa de cimento que protege a gente do ambiente e de outra gente.

Mas casa não foi feita pra proteger de gente.
Pelo contrário. Casa só pode ser feliz se estiver casando.

Quando a casa está casando, ela até vibra.
Tanto que as paredes parecem ficar menores.
As pessoas mais esprimidinhas.
Num calor gostoso. Calor de casa.

Casando, a casa ouve…
Papos, confissões, gargalhadas.
Casando a casa cria…
Momentos que fazem dum grupo de gente 
Nascer uma família.

Nessa hora, 
A casa deixa de guardar coisas
Pra guardar história.
Deixa de ser uma coisa.
Pra ser parte da vida.
Pro resto da vida.
Mesmo se um dia não estiver mais lá.

Toda casa tem um sonho.
Sonho de ser uma uma casa.
Pra isso, é preciso gente. Boa gente. 
Gente bacana e caridosa, como meus amigos... 
Que fizeram dessa noite, 

A noite de uma casa feliz.

19 de agosto de 2013

A hora que gente vira gente

Ele entrou no vagão do Metrô ali pela Consolação. Terno bem cortado, gel no cabelo, barba feita com Gilette Mach3.

Encostou na porta cruzando seus braços deixando a mostra os bíceps de academia. Lançou olhares para todos.

Uma moço logo respondeu. Ela sorriu e baixou a cabeça envergonhada. Ele logo se interessou. Jogou a cabeça e as sobrancelhas de lado como como se dissesse "é o que tem pra hoje".

Se aproximou. Ela sentada o mediu de baixo pra cima. Voltou a sorrir. Ele abaixou e resolveu fazer uma gracinha: - O que essa borboletinha tanto ri?

Ela sem jeito apenas apontou. Entre a cobra e o percevejo, um zíper escancaradamente aberto e uma cueca de bolinha azul dando o ar da graça.

E foi ali que o Cavalo de Tróia desmoronou e ele desceu na próxima estação.

7 de julho de 2013

Reestruturação Familiacional

Nessa noite, minha família está espalhada pelo mundo. Dona Aurea está em Boston, Leandro em Frankfurt, Fabiano está, como esteve nos últimos anos, em Indianapólis e seu Donizetti está na mais distante das cidades, a zona leste.

Mas estejam todos distantes, nesse fim de semana me senti tão perto deles como naquele aniversário de 8 anos que comemorei junto com o meu irmão mais velho. A gente faz aniversário com um mês de diferença. Mas naquele tempo não existia o Twitter e um mês nem era tanto tempo assim.

O encontro se deu entre o Whatsapp como Facebook. Mais precisamente às 14h32 com uma mensagem vinda diretamente de uma maternidade anglo-saxã:

- Nasceu!!!! (com quatro exclamações e quase 41 semanas de atraso)

A tal família reunida pela tecnologia respondeu com mensagens eufóricas:

-       Aeeeee!!
-       Boaaaa!!
-       Vem pra rua!! (repetindo o coro das ruas)
-       Graças a Deus!
-       Manda foto do bebezinho...
-       Mãe traz um tênis pra mim daí?

Havia chegado ele, o mais novo membro da família. O que carrega o sobrenome Oliveira no próprio nome: Oliver, o japinha mais brasileiro do noroeste americano. E dá-lhe a globalização prematura.

Assim que Oliver se desplugou da banheirinha e deu as caras no mundo, houve uma operação na 1ª vara do cartório dos céus. Toda família Oliveira Lima sofreu um rearranjo nos dados cadastrais.

Primeiro o casal, que era só um casal de dois, e agora se tornou uma família de três. Fabiano, Halina com o pequeno Samurai das pradarias guarulhenses, Oliver.

Depois, dona Aurea e Seu Donizetti, que antes eram apenas pai e mãe, mas o tempo e a alcunha são implacáveis. Não bastou o primeiro choro, para serem conhecidos nas redondezas como vovô e vovó. Oficialmente, já podem parar na vaga de idoso.

Mas se tem um idoso que ganhou vigor foi a Veroca. Ela sim, que nasceu sob Getúlio Vargas, viu todas as manifestações da era republicana e ainda frequentou as caravanas do programa do Silvio Santos, virou Bisavó. Salve, dona Vera. Você merece mais do que ninguém respeito e meio copo de vodka com Sprite.

Por fim, Leandro e eu. Que antes éramos apenas os irmãos que sofriam com as porradas do mais velho toda hora que a gente ia brincar com sua coleção de bonequinhos do Star Wars.

Pois é, virei tio. Mesmo aqui na puta que pariu, há umas 3 mil léguas de distância do meu sobrinho. Mas sem crise. Estou digerindo bem a mudança, tomando algumas providências:

- Deixei o bigode crescer;
- Passei a consumidor quatro litros de cerveja por dia para criar uma senhora barriga (com o Leandro tomando a dianteira nesse quesito);
- Comprei uma churrasqueira portátil no Walmart;
- Resgatei meu livro das anedotinhas do bichinho da maçã. Afinal, todo bom tio que se preze tem que ter boas piadas de tio.

Meus tios Luiz e Maurício, que hoje moram no céu, terão muito orgulho de mim.

Sei que não será fácil, mas estou pronto para o desafio. Aconselhar o pequeno, acolher, de dizer “seu pai é assim mesmo, sempre foi assim”, de buscar na escola se a distância permitir e comprar presente e ajudar na montagem do aniversário. 

Pois que venha meu melhor sobrinho.

Afina, seu tio acabou de nascer.


Seja bem-vindo Oliver.

28 de junho de 2013

A moça que corre

Não sei se foi o tempo, o vento ou as duas coisas.
Não sei se foi a canção, o coração ou as duas coisas.
Não sei.

O que sei, é que do ponto de ônibus,
vi no seu rosto um misto de dor e euforia.
Um corpo feliz e cansado, depois de tanta corrida.

Vi um sorriso se formar.
Passo por passo,
Ela pareceu decolar.

Sentiu-se leve.
O tempo foi breve.
E logo teve de parar.

Mas foi o suficiente para viver melhor momento da sua vida naquela semana.

24 de junho de 2013

Super-amigos ativar: forma de consciência política

Logo as passeatas irão passar.

Sem lideranças claras, grupos organizados e reivindicações tangíveis, como são vinte centavos ou a violenta repressão policial, tudo isso acabará rápido. As últimas manifestações são como espuma de mar revolto pós Tsunami.

As pessoas se cansam de ir para a rua a todo momento. Dá bolha no pé atravessar São Paulo gritando palavras de ordem. Se cansam de brigar por pautas tão genéricas quanto o fim da corrupção e a favor da saúde e da educação.

Logo as passeatas irão passar.

Mas o que ficará delas?

Mais do que multidões nas ruas, balas de borracha e palácios depredados, as manifestações criaram símbolos. Imagens poderosas que ficaram para sempre na cabeça de toda uma geração.

Imagens que têm o poder de mudar o comportamento de uma boa parcela da população que é muito mais danoso que as vidraças quebradas e os carros incendiados.

Bem pouco tempo atrás, antes dessa onda de manifestação acontecer, ai de você se puxasse o assunto sobre a distribuição dos royalties do petróleo ou sobre projeto de lei que submetia as decisões do STF à Câmara em uma roda de conversa.

Nessa hora, surgiriam discursos cansados e rasos como a “corrupção desses políticos ladrões”. No pior dos cenários, o mais comum, você seria ignorado. Afinal não vale a pena perder tempo com isso. Logo alguém puxaria outra conversa. Talvez a do amigo que mudou seu status no Facebook.

Para essas pessoas, espero que as manifestações tenham tido um efeito biológico educativo, como um vírus que mostre que se interessar por política é da hora. Que mostre o quão emocionante é lutar de forma coletiva e organizada por causas justas e concretas.

Era visível no rosto o prazer de cantar “O Povo Acordou”, mesmo que fosse só para dar uma volta na Faria Lima e tirar fotos no Instagram.

Se algo ficar das passeatas, espero que seja esse vírus vibrante e interessado pela política real. Um vírus que contamine todos para tornar a discussão política algo profundo e vibrante como são as conversas sobre os vilões da última novela das 9.

Afinal, como disse o sociólogo espanhol Manuel Castells no último Fronteiras do Conhecimento, a dominação de um povo não faz por tanques. Se faz por ideias. Um povo dominado é aquele que desiste de discutir a sério a política.

Portanto, amigo manifestante, se você realmente teve  prazer de gritar nas ruas “O Brasil acordou”, espero que ele tenha desperto de verdade para a discussão política e não só aquela acordada para depois olhar que ainda dá pra dormir mais alguns minutinhos.

Porque, visivelmente, não dá mais.

5 de maio de 2013

E o côncavo vira convexo



Marcos hoje não pode nem ouvir falar em Inhotim.
Da última vez, estava assistindo ao Jornal Nacional e viu uma reportagem sobre aquele jardim encravado no meio de Minas Gerais. Esbravejou com a televisão por trazer de volta a cena de suas mãos entrelaçadas com as de Bianca. A primeira viagem daquele antigo casal de namorados foi revivida com um choro no último volume.

Bianca hoje não pode ver um pedalinho.
Ela até que vive bem porque os pedalinhos sumiram de São Paulo. Mas da última vez que viu um, pediu licença ao marido e sentou-se sozinha num banquinho de praça. Lembrou do feriado em São Gonçalo e das palavras do Luiz Gustavo dizendo que a amaria para o resto da vida.

Luiz Gustavo hoje não pode ver uma barriquinha de pipoca.
Quando vai a um teatro, olha para os dois lados só para não ter de cruzar com uma. Se cruza, ele, que é de falar e sorrir, fica introspectivo e triste. Foi em frente a barriquinha de pipoca na porta da Faculdade que reencontrou Cecília. Ele calouro e ela veterana. Amor de faculdade que terminou num diploma.  

Cecília hoje não entra mais lá no Genésio.
Se alguém convida a Ceci para um happy hour lá, ela logo inventa outro compromisso. Até faz um caminho mais longo de volta pra casa só para não passar na frente daquele bar em que muito se divertem. Foi lá que notou que Carlos e Rita eram muito mais do que melhores amigos.

Carlos hoje quando escuta uma gafieira fica parado feito porta.
Não que não saiba dançar. Pelo contrário. Ele até fez aula de dança e é por isso que não se mexe. Foram nessas aulas que se divertia com Rita toda sexta-feira. Ele sonhava levá-la um dia para uma gafieira para dançarem juntos. O namoro acabou antes.

Rita hoje não tempera mais a salada com vinagre balsâmico.
Não é pela gastrite, não. 
Quando morou com Daniel, ele derramou vinagre balsâmico por todo tapete ao querer dar uma de macho-alfa que abre as garrafas de casa. Naquela época, podiam dar risada das desgraças juntos. Hoje, não.

O Daniel, que antes sempre sacava uma da Legião no violão, hoje não pode mais ouvir a voz do Renato Russo. Adivinha o porquê?

Porque, aos olhos do coração, cada história que a gente vive dá aos substantivos novos contornos que transformam o inofensivo em grandes armadilhas.
E o que era côncavo fica convexo.